O ATAQUE DOS COELHOS ASSASSINOS
Parece o título de um filme trash dos anos 80, mas não é.
Entre as incríveis miniaturas e desenhos que povoam os manuscritos medievais sobreviventes até os dias de hoje, existem várias ocorrências de imagens que representam coelhos, frequentemente na forma de marginalia (anotações do autor ou copista nas margens de um livro).
Embora o coelho fosse considerado um símbolo de pureza, fragilidade, inocência, passividade e mesmo de covardia, retratam os roedores envolvidos em atos violentos e sádicos sem motivo aparente e, o que não era assim tão raro, sem nenhuma conexão clara com o conteúdo do texto.
Nos manuscritos medievais, é possível admirar uma quantidade incrível de personagens, humanas, animais, híbridas ou simplesmente imaginárias, em situações inusitadas e cenas engraçadas ou trágicas muitas vezes não relacionadas a nenhum evento real. São chamadas de drôleries.
Os coelhos assassinos se enquadram entre as drôleries mais bizarras da Idade Média: vários manuscritos contêm representações de lebres e coelhos que se vingam dos seres humanos cometendo atos brutais. Transformam-se de presas em caçadores de seu mais eficiente predador.
As imagens apresentam conteúdos como:
Coelhos que vão à guerra armados com lanças, espadas e machados;
Coelhos que torturam ou espancam até a morte um ou mais seres humanos;
Coelhos em procissão religiosa;
Coelhos que executam seres humanos;
Coelhos e lebres que sequestram mulheres e crianças para arrastá-las até a floresta.
Contudo, como já acenamos, coelhos e lebres não são os únicos animais que se enquadram no tema do mundo de cabeça para baixo, muito popular entre os séculos XIII e XVI.
Entre os protagonistas da arte das marginálias medievais, temos também raposas, cães de caça, macacos, peixes, caracóis (retratados em confrontos com cavaleiros) e uma enorme variedade de criaturas míticas, sobrenaturais e satíricas, como o “Pênis Verde Voador” do Decretum Gratiani (1340-1345).
É difícil determinar por que os amanuenses medievais inseriam essas imagens em textos de grande relevância cultural. Os confrontos entre caracóis e cavaleiros poderiam ser interpretados como o constante conflito entre a aristocracia opressiva e as pessoas comuns, mas esse tipo de marginalia muitas vezes parece ter sido criado sem um propósito específico, intenção educacional ou mensagem oculta, apenas pela vontade de criar algo engraçado. É o que nos vem à cabeça quando nos deparamos com um coelho montando um caracol em um combate contra um cão que monta um coelho.
O nonsense também podia estar presente na cultura medieval, assim como a mera diversão. Eram, de certa forma, os memes daquela época.




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