Mitos medievais - A Terra Plana
O mito que na Idade Média todos acreditavam que a Terra fosse plana é uma ideia equivocada que se tornou bastante difundida, mas que não corresponde à realidade histórica. Na verdade, durante a maior parte da Idade Média, o entendimento predominante entre os estudiosos era que a Terra era uma esfera, não um disco plano.
Há várias razões pelas quais esse mito é problemático:
Conhecimento clássico: Desde os tempos da Grécia Antiga, filósofos e pensadores como Pitágoras, Parmênides, Empédocles e, mais notavelmente, Aristóteles, já haviam discutido e teorizado sobre a forma esférica da Terra com base em observações e raciocínio lógico. O matemático Eratóstenes já havia calculado a circunferência da Terra e essas ideias foram posteriormente aceitas e transmitidas por eruditos medievais.
Tradição religiosa e cosmológica: A influência da Igreja Católica na Idade Média frequentemente é associada a esse mito. No entanto, muitos pensadores cristãos medievais estavam familiarizados com os textos de Aristóteles e de outros pensadores antigos que argumentavam em favor da esfericidade da Terra. Além disso, a concepção esférica da Terra estava em sintonia com as crenças cosmogônicas da época.
Viagens e explorações: À medida que as viagens e explorações marítimas aumentaram durante a Idade Média, os navegadores observaram fenômenos que sugeriam a curvatura da Terra, como a forma como os navios desapareciam gradualmente no horizonte. Isso também contribuiu para a compreensão da Terra como uma esfera.
Mapas e representações visuais: Mesmo nos mapas medievais, a representação da Terra frequentemente seguia um formato circular, o que era consistente com a ideia de uma esfera.
Contudo, é importante notar que, como em qualquer época da história, havia variações no conhecimento e nas crenças. Podem ter existido indivíduos ou grupos isolados que sustentaram visões diferentes, mas a compreensão geral entre os eruditos, clérigos e pessoas instruídas era de que a Terra era esférica.
O mito de que a Terra plana era um conceito amplamente aceito na Idade Média ganhou popularidade no século XIX, principalmente como parte de uma narrativa que pintava o período medieval como uma época de ignorância e obscurantismo. No entanto, os avanços na pesquisa histórica desde então mostraram que a visão esférica da Terra era bem estabelecida na mentalidade da época.
O Tractatus de Sphaera, por exemplo, foi escrito pelo matemático, astrônomo e astrólogo Johannes de Sacrobosco (também conhecido como John Holywood) no início do século XIII.
Conhecido também como De sphaera mundi ou simplesmente De sphaera, foi, de longe, o tratado de astronomia mais difundido e estudado na Idade Média: era utilizado em todas as universidades e o manuscrito foi copiado muitas vezes antes da invenção da impressão. A primeira cópia impressa apareceu em Ferrara em 1472 e, desde então, continuou a ser impressa por mais dois séculos e recebeu numerosos comentários, entre os quais o mais famoso foi o do astrônomo jesuíta Christoph Clavius (1538-1612), intitulado In sphaeram Iohannis de Sacro Bosco commentarius (Roma, 1581). Entre outros, há o manuscrito iluminado Sphaerae coelestis et planetarum descriptio.
O Tractatus de sphaera, essencialmente baseado no Almagesto de Ptolomeu, é dividido em quatro capítulos: o primeiro trata da estrutura geral do universo; o segundo das esferas celestes; o terceiro da rotação diária do céu e das zonas climáticas terrestres; o quarto dos movimentos dos planetas e dos eclipses.
O fato que uma obra tão influente e disseminada afirmava a esfericidade da Terra é um testemunho direto que a compreensão da forma esférica do planeta não era apenas conhecida, como também ensinada nas instituições educacionais durante a Idade Média.
Mas Cristovão Colombo não confrontou estudiosos que defendiam com veemência a ideia da Terra Plana?
O historiador Jeffrey Burton já afirmou que “pessoa alguma instruída na história da civilização ocidental desde o século III a.C. para a frente acreditava que a Terra era plana.”
O mito associado a essa ideia teve origem com Washington Irving (1783-1859), que em 1828 publicou seu livro The Life and Voyages of Christopher Columbus.
Irving idealizou um Colombo heroico, representante do Iluminismo, em uma busca científica para combater as superstições medievais. O escritor fez isso para defender uma ideologia e tornar mais cativantes a vida e as viagens do navegador, depois de considerar os eventos reais monótonos e desinteressantes no curso de suas pesquisas históricas.
Eis aqui um exemplo que fake news já vendem e são propagadas com relativa velocidade há um bom tempo, e assim vemos se propagar, no ensino da história, danos colaterais que persistem até os dias de hoje, por terem ficado enraizados na cultura popular.


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