Viajar na Idade Média: meios de transporte, perigos e hospitalidade

Como as pessoas se moviam durante a Idade Média, por que viajavam e quanto tempo duravam as viagens?

Apesar da imagem estereotipada da Idade Média como uma era de retrocesso em relação à Antiguidade, muitos estudos atuais destacam como se tratou, na realidade, de um período rico em vitalidade e inovações.

É preciso superar a concepção que a imobilidade e a estagnação caracterizaram o Medievo. Os homens medievais viajavam muito e por várias razões. Deslocavam-se por:

  • Motivos religiosos;

  • Questões comerciais;

  • Razões militares.

Além disso, os viajantes pertenciam a todas as classes sociais:

  • Os camponeses viajavam para alcançar terras para cultivo;

  • Os nobres para conduzir guerras e participar de torneios;

  • Os eclesiásticos para se deslocarem entre os vários mosteiros e igrejas;

  • Os comerciantes para transportar suas mercadorias e participar de feiras;

  • Homens e mulheres de todas as classes sociais se engajavam, por fim, em peregrinações. O turismo religioso, portanto, era comum a todos, e eram numerosos os locais de peregrinação. Muitas vezes bastava uma igreja conter a relíquia de um santo para se tornar meta de peregrinos.

No entanto, havia três destinos principais:

  • Santiago de Compostela, uma cidade localizada na região espanhola da Galícia, conhecida por ser o local onde foram sepultados os restos de São Tiago Maior, apóstolo de Jesus Cristo;

  • Roma, onde os peregrinos poderiam orar no túmulo do apóstolo Pedro;

  • A Terra Santa e, especialmente, Jerusalém, a cidade sagrada por excelência, pois abrigava o Santo Sepulcro. O percurso que os peregrinos faziam para alcançar este lugar passava pela região dos Bálcãs ou pela Via Francígena, um conjunto de rotas que ligavam a França até Roma e dali até a Apúlia. os peregrinos podiam embarcar com destino a Jerusalém.

Qualquer que fosse a rota, uma peregrinação podia durar muitos meses, até anos, e havia diversos perigos que se interpunham entre o peregrino e seu destino: criminosos, animais selvagens e a inadequação das estradas, juntamente com a falta de reparos ou a insuficiência delas, tornavam a jornada perigosa e difícil. Se uma coisa era melhor no Ocidente durante o período do antigo Império Romano, era sem dúvida a rede de estradas, até porque contavam com a manutenção constante do governo central.

Além disso, os viajantes precisavam enfrentar as intempéries e a imprevisibilidade do clima. Para os peregrinos, era essencial contra com lugares onde pudessem descansar com segurança, dormir, passar a noite e se alimentar.

Aí que entra a questão da hospedagem. Catedrais e mosteiros estavam entre as instituições que ofereciam hospitalidade gratuita aos peregrinos.

Também havia os xenodóquios (casas de hóspedes), estruturas construídas não muito longe das abadias. Cabia aos monges receberem os viajantes ali.

Já os hospitais (por vezes chamados de hospícios), eram lugares designados para acolher não apenas os peregrinos, como também todos aqueles que viviam em condições econômicas precárias.


As viagens do mercador

Além do peregrino, aquele que realizava as viagens mais longas durante a Idade Média era certamente o mercador.


Essa figura precisa ser compreendida no contexto do desenvolvimento da economia medieval: durante a Baixa Idade Média, o período que a historiografia associa aos anos que vão do ano mil à descoberta da América em 1492, o comércio, as cidades e a burguesia urbana se desenvolveram, embora a agricultura ainda fosse a atividade mais praticada em toda a Europa.

Muitos indivíduos optaram, portanto, por uma carreira no setor de comércio. Os mercadores se dedicavam a vender os produtos manufaturados pelos artesãos ou os produtos agrícolas e levavam uma vida itinerante em boa parte do tempo. Ou seja, precisavam viajar tanto para adquirir novas mercadorias como para participar de feiras e encontrarem compradores em cidades diferentes daquelas onde residiam.

As principais regiões onde se concentravam os mercados e as feiras, e que eram metas de comerciantes de diferentes origens, eram:

O norte e o centro da Itália, sobretudo Amalfi, Gênova, Pisa e, é claro, Veneza, cidade dominante no Adriático. Não por acaso ficaram conhecidas como Repúblicas Marítimas (em italiano, Repubbliche Marinare).

A Europa do Norte voltada para o Báltico.

A área banhada pelo rio Reno.

Flandres.

Champanhe.

Esta última era um região francesa célebre por suas feiras, que ocorriam uma vez por ano nos centros de Lagny e Bar-sur-Aube, e duas vezes por ano em Provins e Troyes. Além dessas principais, também existiam feiras secundárias.

O calendário era organizado de forma que, durante a maior parte do ano, pelo menos uma feira permanecia aberta, garantindo a continuidade das transações.

O sucesso dessas manifestações comerciais deveu-se sobretudo à segurança oferecida pelos condes de Champagne aos comerciantes e à sua localização geográfica. Localizadas a meio caminho entre o Mediterrâneo e o Mar Báltico, tornaram-se o ponto central do comércio europeu por cerca de dois séculos. Os mercadores italianos e provençais trocavam produtos do Mediterrâneo e do Oriente (tecidos, especiarias) por aqueles do norte (peles, resina), canalizados pelos mercados flamengos e alemães.

A necessidade fez com que as feiras se tornassem um dos lugares onde o uso do dinheiro se reafirmou. As moedas de base de prata de Provins e Troyes foram algumas das primeiras a serem aceitas internacionalmente, junto com aquelas emitidas pela Abadia de São Martinho de Tours, as chamadas libras tornesas.

Posteriormente, as feiras também se estabeleceram como locais de câmbio entre as diferentes moedas.

A partir de 1300, a abertura de novas rotas comerciais entre Flandres e o norte da Itália, as regiões mais prósperas da Europa na época, determinou o declínio das feiras de Champagne.

os comerciantes se encontravam, vendiam e compravam mercadorias, negociavam os preços dos produtos, estabeleciam alianças.

Onde eles se hospedavam, não só em Champanhe como em outras partes da Europa?

Os mercadores costumavam transcorrer as noites nas casas de outros mercadores, em pousadas pagas e em lugares amplos com quartos destinados à hospitalidade de mercadores estrangeiros e outros espaços usados como armazéns.

Em conclusão, o homem medieval não era um homem estático. Assim como o período histórico foi repleto de mudanças, também suas vidas eram caracterizadas pela mudança, e a fé e o desejo de enriquecerem material ou culturalmente estimulavam suas viagens.

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