O sexo na Idade Média
O ato sexual é um ato normal, é parte da natureza humana e de seu funcionamento. Mas também é um ato que ao longo do tempo, devido a diversos condicionamentos socioculturais, foi objeto de tabus. E quando se pensa em tabus sobre o sexo, tende-se frequentemente a associá-los a uma época em particular, a Idade Média.
Na verdade, quando se quer descrever uma pessoa com atitudes conservadoras e obscurantistas sobre o assunto, é inevitável o adjetivo “medieval”. Mas e se não isso não fosse verdade?
Boccaccio, Decamerão, história X, quinto dia
Na manhã seguinte, o rapaz apareceu na praça sem muita certeza se na noite anterior tinha se portado mais como marido ou mais como esposa (...)
Boccaccio, escritor italiano, mais especificamente florentino, e contemporâneo de Dante, foi um homem medieval.
Talvez apenas esta frase pareça o suficiente para demonstrar que a Idade Média não era uma época obscurantista e essencialmente repressiva. Mas as coisas não são assim tão simples. Como em tudo na história, não são 8 nem 80.
Na verdade, Boccaccio era um autor que com frequência fazia uso do tema da sexualidade em seu Decamerão, e fazia isso de maneira bastante irreverente e provocativa, embora sempre com um estilo elevado e rigoroso.
Nesse conto, Boccaccio fala abertamente de bissexualidade e homossexualidade, e o faz com grande desenvoltura, sem se preocupar em nada com uma hipotética “fogueira” ou outras punições que normalmente são associadas àqueles que falavam sobre esse tipo de assunto durante a Idade Média. Que foi um período de mil anos, apresentando em si mundos tão diferentes quanto nosso tempo difere do século XIX ou do XVIII.
A despeito de uma ou outra constante, a visão do sexo durante o Medievo variou ao longo do tempo e do espaço.
O protagonista da história em questão é Pietro da Vinciolo. Um homossexual que decidiu não se casar precisamente por essa razão. No entanto, sendo famoso em sua cidade, Perugia, onde sua condição era bem conhecida, e, portanto as fofocas rolavam soltas, muda de rumo e cede à pressão social.
O destino faz com que ele se case com uma mulher particularmente quente na cama, e Boccaccio escreve:
A esposa que tomou era uma jovem bem formada, robusta, de cabelos vermelhos e ardentes, que teria desejado não apenas um como dois maridos. De modo que logo percebeu que ele se dispunha muito mais a outras coisas do que a ficar com ela.
Assim que a mulher percebe que o marido não está particularmente interessado nela, busca orientação com uma idosa muito devota, considerada uma santa pela comunidade também devido à sua natureza ascética e penitencial. Curiosamente, esta, que desde jovem, devido à sua santidade, decidiu não ter relações com homens, aconselha-a veementemente a não perder tempo e a trair o marido.
O interessante aqui reside também na justificativa que ela fornece a si mesma, e apenas pedimos ao leitor que contextualize uma frase do gênero nas circunstâncias do século XIV.
Ofenderei apenas as leis, enquanto ele ofende as leis e a natureza.
Assim, a mulher decide, em uma noite na qual Pietro está na casa de amigos, convidar um jovem trabalhador para jantar. Sentam-se à mesa e, quando estão prestes a começar a comer, Pietro bate à porta. Estava de volta mais cedo do que o previsto.
A cena aqui é típica dos contos de Boccaccio: a esposa emprega sua astúcia e esconde o amante; o marido não deveria descobrir nada.
Esta história, no entanto, segue um rumo diferente. Porque o trabalhador, ao se esconder debaixo de uma ampla bacia no estábulo, comete o erro de deixar a mão de fora. Mão esta que é pisoteada pelos cascos de um burro, resultando em um grito.
Assim que Pietro encontra um estranho escondido em seu estábulo, sua reação é muito peculiar. Esperaríamos que um homem que descobre outro homem escondido em sua casa, com a intenção de conduzir sua esposa à traição, ficaria no mínimo com raiva. No entanto, a atitude de Pietro é mansa e calma. Aliás, convida o amante da esposa para jantar com os dois cônjuges, criando quase que uma estranha cena familiar.
Aqui, Dioneu, o narrador da história, se interrompe. O que acontece depois naquela noite, ninguém sabe. Entretanto, pela manhã, o rapaz é encontrado na praça central de Perugia, trazido talvez pela mulher, talvez pelo homem, quase que em um estado de inconsciência. Em resumo, não sabe com quem passou a noite, se com Pietro, com a esposa ou mesmo com ambos.
O que se sabe é que Boccaccio, com este conto, revela sua modernidade, ou talvez modernidade nem seja a palavra certa, porque a época moderna (anterior à contemporânea e após a Idade Média) condena a homossexualidade de maneira muito mais severa. Durante boa parte da Idade Média, simplesmente não era uma questão assim tão relevante, e, portanto, na prática, não havia as restrições que geralmente são acreditadas como existentes no âmbito sexual. Quando monges, por exemplo, condenavam a sodomia como uma imoralidade e um ato contrário à natureza, afinal não gerava prole, esta incluía não apenas a prática homossexual como também o sexo anal heterossexual, que ao que tudo indica era praticado com mais afinco do que o senso comum pressupõe.
Um fabliau interessante, “O Esquilo”
Os
fabliaux
são composições medievais caracterizadas por um estilo irreverente
e um registro linguístico baixo e grosseiro. Falam
sem restrições
sobre sexo e eram escritos para entreter o público de nobres
e plebeus que ia ouvir o bufão assim que este chegava ao castelo.
O fabliau que apresentamos aqui é o chamado L’Esquiriel, ou seja, “O Esquilo”. Começa com a cena de uma mãe burguesa que repreende sua filha de quatorze anos por fazer uma certa pergunta repetidamente.
A pergunta é: “Mamãe, me diga uma coisa: como se chama e o que é aquela coisa que pende entre as pernas do papai?”
Diante de uma pergunta desse tipo, a mãe responde de maneira muito moralista, dizendo que as mulheres não deveriam nomear um objeto tão pecaminoso.
No entanto, a garota, que é uma adolescente, assim como os adolescentes de nossa época, já estava bem informada. Para tanto, contava com muito material literário com o qual se informar, dos inúmeros fabliaux que podia ouvir ao grande best-seller da Idade Média, O Romance da Rosa, escrito por Jean de Meung, em que o tema sexual é tratado com leveza e desenvoltura.
Decide, um pouco como um ato de desafio à mãe, começar a usar a palavra “pênis” livremente. Além disso, também se pergunta por que os homens da família podem usá-la enquanto às mulheres é proibida.
Mas o que torna este fabliau ainda mais interessante é a reflexão final da garota. Na Idade Média, já havia uma consciência da ideia de arbitrariedade entre uma palavra e seu significado, conceitos posteriormente retomados pela linguística moderna e derivados sobretudo de Aristóteles. O que é essa arbitrariedade? Em poucas palavras, significa que o fato de a palavra “mesa” ter como seu significado direto o objeto não deriva de relações naturais, e sim de uma escolha do ser humano, que, por razões funcionais e, portanto, arbitrárias, dá a esse objeto o nome de “mesa.”
Então a garota faz o seguinte raciocínio: se os homens tivessem decidido que o objeto que representa no idioma as relíquias não fosse chamado dessa forma, mas de “testículos”, então todos usariam essa palavra livremente e até venerariam os “testículos”. Já, pelo lado oposto, caso a palavra “relíquias” fosse mencionada para indicar os testículos, o termo seria condenado como imoral, errado e nojento. Em resumo, por trás da irreverência e da linguagem grosseira deste fabliau, escondem-se reflexões sobre a sociedade dignas de nossa época.
A iluminura de Agátocles de Siracusa beijando a viúva de Damas
A viúva de Damas era a esposa de Agátocles de Siracusa. Ele era o tirano de Siracusa e desempenhou um papel significativo na história da República Romana, sobretudo como seu aliado.
A iluminura é muito interessante, pois retrata uma cena erótica, de amor entre os dois cônjuges que se beijam tomados por um fervor de amor juvenil, e certamente desprovidos de qualquer temor de julgamento pela sociedade, em uma aberta demonstração de paixão.
Concluímos, portanto, com a constatação que o período medieval estava bem distante de ser a era da repressão, uma concepção propagada com frequência pelo cinema e por outras mídias, mas que não encontra comprovação ao estudarmos atentamente as fontes literárias e artísticas da época.


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