Os segredos de Newton
O que um cachorro chamado Diamond teria a ver com os segredos de Isaac Newton? Todos nós sabemos quem era Newton: aquele que, segundo a lenda, era tão genial que formulou a lei da gravitação universal depois que uma maçã caiu sobre sua cabeça. Redigiu as regras fundamentais da mecânica clássica, definiu as leis do movimento, inventou o cálculo infinitesimal, enfim, Newton é de certa forma o pai da ciência moderna. Com ele, a chamada revolução científica atingiu seu ápice. Seria a personificação da racionalidade e do método científico, que teriam posto fim a superstições que durante séculos barraram o avanço da humanidade. Certo?
A história real não é tão óbvia como os manuais costumam dar a entender. E muito do que vamos comentar aqui se deveu à iniciativa de outra personalidade histórica, quase tão famosa quanto Newton, ou seja, John Maynard Keynes.
Keynes é considerado o economista mais influente do século XX, graças às teorias econômicas que levam seu nome, as Keynesianas.
Contudo, além de ser um economista muito conhecido, também era um colecionador e foi o homem que adquiriu e estudou as obras alquímicas e esotéricas de Newton. Sim, porque Newton, normalmente descrito como o arquétipo do homem de ciência, na verdade dava muito mais importância aos seus estudos alquímicos do que às obras que hoje consideramos fundamentais. Para Newton, as leis da física eram apenas um apêndice de estudos muito mais amplos para redescobrir a sabedoria dos antigos e desvendar as forças mais profundas que governam o cosmo.
Keynes afirmou, depois de ler essas obras, que Newton não foi de forma alguma o primeiro homem da era da razão, mas o último dos magos. O que não é assim tão verdadeiro, já que mesmo o século XX teve inúmeros ocultistas famosos, como Aleister Crowley, Gerald Gardner e até mesmo o poeta irlandês William Butler Yeats, que porém já viviam em uma época em que essa visão de mundo não era mais considerada – por quase ninguém explicitamente no campo da ciência e da filosofia – como adequada para descrever a realidade. De modo que a definição de Keynes pode ser compreendida nesse sentido.
A maioria dos escritos ocultos de Newton se concentra na alquimia. No entanto, para entender por que permaneceram quase desconhecidos até hoje, é preciso falar sobre o verdadeiro contexto em que Newton conduzia suas pesquisas. Ao contrário do que muitos pensam, não existe uma visão newtoniana do mundo no sentido de uma visão puramente mecanicista ou científica no sentido moderno.
Em sua visão, formulações que hoje chamamos de científicas se misturavam, sem uma distinção clara, com a religião e com conhecimentos de enfoque místico. Desde muito jovem, Newton estava profundamente interessado na natureza em todas as suas nuances, mas nunca usou, por exemplo, nomenclaturas científicas que podem ser atribuídas a outros cientistas famosos, como Antoine Lavoisier ou Robert Boyle. Mesmo para descrever descobertas científicas, Newton com frequência também usava uma linguagem esotérica, às vezes difícil de interpretar, na linha da tradição dos alquimistas medievais e renascentistas. Certos escritos de Newton não são muito diferentes dos de autores como Basílio Valentim, Paracelso e Nicolas Flamel.
Suas teorias frequentemente são expressas com símbolos inventados por ele. O historiador da ciência William Newman estudou muitos cadernos de anotações de Newton e nestes fica claro que ele não fazia distinções entre a alquimia e o que hoje é considerado ciência. Nas mesmas páginas em que encontramos registros de experimentos de óptica ou de fenômenos de congelamento e ebulição da água, também encontramos o tridente do deus Poseidon, o caduceu de Hermes e o leão verde, todos símbolos alquímicos.
Aqueles que conhecem profundamente a obra de Newton hoje consideram como certo o fato que suas descobertas científicas tenham sido influenciadas, se não diretamente motivadas, pelos estudos sobre alquimia.
Mas se tudo isso é tão evidente, alguém poderia se perguntar por que ainda estamos falando aqui de segredos e teorias secretas. Bem, é verdade que hoje esses fatos são conhecidos por pesquisadores, mas são pouco divulgados e por muitos séculos permaneceram como algo misterioso ou do qual não se falava.
Na verdade, o próprio Newton, enquanto estava vivo, tentou manter essa outra parte de seus estudos em segredo. Em primeiro lugar, era uma pessoa reservada. Em segundo, temia que alguém pudesse desacreditá-lo ou sobretudo persegui-lo caso tornasse aquilo público. Na época, a alquimia, embora ainda considerada por muitos como uma prática válida que unia a mística ao estudo da natureza, estava em uma espécie de limbo entre o permitido e o proibido, portanto era melhor manter aquela pesquisa para si mesmo.
Além disso, especificamente na Inglaterra haviam sido promulgadas leis contra os alquimistas, que eram considerados hereges. Essas leis tinham sido pensadas para punir quem prometia ganhos milagrosos, por exemplo transformando chumbo e outros metais em ouro. Foram aplicadas para punir uma longa lista de fraudadores. Portanto, é sensato pensar que Newton não tivesse nenhuma vontade de ser associado a essa gente, que os alquimistas considerados sérios chamavam de “sopradores”, não desejando também arriscar a forca.
Newton também tinha visões religiosas bastante controversas. Ao contrário do que podemos pensar, tinha mais de 30 cópias da Bíblia, que examinava com o mesmo cuidado que dedicava ao mundo natural. Mesmo ao estudar a Bíblia, estava convencido de uma sua teoria segundo a qual o dogma da Trindade estava errado e Cristo não estava no mesmo nível de Deus. Essa, naquela época, era uma ideia herética que, se descoberta, poderia colocá-lo em grande perigo.
É compreensível então o porquê, após sua morte, seus herdeiros tenham publicado apenas uma pequena parte de seus escritos. Temiam as mesmas consequências que Newton receava. Portanto, muitas de suas obras ressurgiram apenas dois séculos após sua morte, quando já tinham um enorme valor histórico, independentemente do conteúdo, devido à fama mundial de Newton.
Foi assim que o economista Keynes as adquiriu em um leilão, e depois passaram para o colecionador de documentos Abraham Yahuda. A partir dos anos 40 do século XX, foram redescobertas e estudadas, embora muitas vezes, quando um desses textos ganha visibilidade, alguém sempre sugira que Newton, no final de sua vida, sofria de exaustão nervosa. Teria então produzido textos incoerentes.
Na realidade, seus textos místicos e alquímicos foram produzidos ao longo de toda a sua vida e são perfeitamente coerentes e integrados com seu pensamento.
Os principais objetivos de seus estudos alquímicos são os mais clássicos: a obtenção da Pedra Filosofal e do Elixir da Longa Vida. Newton acumulava muitos textos sobre o assunto e em particular se interessava pela figura de Nicolas Flamel.
Integrando essas pesquisas com seus conhecimentos matemáticos, concebeu uma força cósmica invisível de natureza espiritual, que o levou à sua pesquisa sobre o movimento dos corpos celestes e, como decorrência, às descobertas que hoje chamamos de científicas.
Mas para além da parte alquímica, há outras teorias, muito inusitadas e ainda mais surpreendentes, entre as que foram elaboradas por Newton. Uma delas, quase desconhecida, está contida na cronologia corrigida dos antigos reinos. Este texto foi um dos últimos que ele próprio revisou antes de morrer e foi publicado postumamente no ano seguinte à sua morte, em 1728.
Até hoje, este texto ainda é desacreditado. Isso ocorre porque essencialmente Newton fornece uma cronologia dos eventos históricos diferente daquela à qual estamos acostumados.
O próprio título da obra evidencia que seu intento é corrigir a cronologia da história antiga. Para fazer isso, Newton também se baseia em observações científicas relacionadas à precessão dos equinócios. A precessão dos equinócios é um fenômeno pelo qual um movimento da Terra modifica de modo lento, porém contínuo, a orientação de seu eixo de rotação em relação à esfera ideal das estrelas fixas.
Para explicar de forma mais simples, a Terra tem uma leve inclinação e sua posição no espaço muda lentamente ao longo do tempo. Essa mudança faz com que os pontos onde o Sol está no céu em relação às constelações se modifiquem com a passagem dos séculos e milênios. Por exemplo, se olharmos para o Sol no equinócio da primavera daqui a 2100 anos, veremos que ele está em uma posição diferente da que vemos hoje.
Alguns estudiosos afirmam que esse fenômeno já era conhecido pelos babilônios e pelos antigos egípcios. Seja como for, este método permitiria estabelecer precisamente no tempo certos acontecimentos com base na posição do Sol em relação às constelações. E através dele, Newton propôs uma cronologia revisionista, argumentando que o passado está muito mais próximo de nós do que acreditamos.
Para darmos um exemplo, a data histórica mais antiga que ele fornece é a de 1125 a.C. No entanto, nessa data encaixa o faraó Tutemés I, que os historiadores contemporâneos encaixam em cerca de 1500 a.C., o que avança a cronologia em por volta de quatro séculos. Ainda hoje existem pesquisadores que propõem cronologias diferentes da comumente aceita, e o mais famoso entre estes é um físico e matemático russo chamado Anatoly Fomenko, com sua nova cronologia. Contudo, não é algo que costuma ser associado a Newton, que para realizar esses cálculos certamente se baseou em historiadores gregos como Heródoto e Tucídides, ou mesmo nos mitos gregos e na Bíblia.
Tais fontes podem ser contestadas como pouco confiáveis historicamente falando, e o próprio Newton demonstrou insegurança em vários pontos de seu estudo enquanto elaborava essa cronologia. Muitos o repreenderam por considerar o mito de Atlântida como algo factível. O grande físico tendia a identificá-lo com a ilha de Ogígia mencionada na Odisseia.
Seu interesse pela Bíblia, que considerava como o texto mais sagrado e verídico, também o levou a tecer hipóteses que hoje nos pareceriam supersticiosas ou mágicas.
Ainda na cronologia revisada dos antigos reinos, dedica um capítulo ao Templo de Salomão conforme apresentado na Bíblia. Newton considerava o projeto do Templo como um exemplo de geometria sagrada capaz de conter uma sabedoria perdida.
Acreditava firmemente que os antigos haviam ocultado seu conhecimento em um complexo código de linguagem simbólica e matemática que, uma vez decifrado, revelaria o funcionamento da própria natureza.
Sempre com base na Bíblia, produziu dois documentos contendo profecias. Através de uma série de cálculos histórico e matemáticos, Newton acreditava inclusive ter estabelecido a possível data para o fim do mundo, ou seja, 2060, e levava isso muito a sério. Normalmente, chamaríamos de mago ou astrólogo quem faz esse tipo de profecia.
O objetivo deste texto, que fique claro, não é convencer o leitor da veridicidade das crenças de Newton, mas mostrar como nossa narrativa contemporânea sobre certos personagens muitas vezes é pobre e parcial. O mesmo homem que formulou as leis que são a base da ciência moderna elaborou inúmeras teorias que hoje o colocariam na lista dos chamados pseudocientistas. E o mais incrível é que provavelmente não teríamos umas sem as outras. O que nos diz que deveríamos ser mais humildes em nossas certezas e ir muito mais a fundo na análise de eventos e personagens históricos do que costumamos fazer.
Na biblioteca do físico, havia entre outros escritos uma tradução inglesa do Manifesto dos Rosa-Cruzes e obras do alquimista Michael Maier, conselheiro do imperador Rodolfo II de Habsburgo, imperador germânico que era um entusiasta de esoterismo e ocultismo. O próprio Maier havia sido influenciado pelas ideias dos Rosa-Cruzes, e Newton parece ter feito tantas anotações nesses livros que até os desgastou.
Não há evidências claras de que pertencesse a sociedades secretas de natureza esotérica, embora seu pensamento pareça ter sido fortemente influenciado por conceitos característicos dessas sociedades.
Não por acaso, Newton é uma figura apreciada pela maçonaria em todo o mundo. E há ainda um último mistério dentro do mistério que é essa vida paralela e secreta do extraordinário cientista. Tanto os livros que lhe pertenceram quanto os que ele escreveu sobre ocultismo que conhecemos poderiam não passar de uma pequena parcela do verdadeiro total.
No momento de sua morte, tinha 169 livros sobre o assunto em sua biblioteca, que na época era considerada uma das melhores bibliotecas alquímicas do mundo. Mas acredita-se que tenha vendido alguns exemplares antes de se mudar para Londres e os escritos secretos de sua própria mão podem ter tido um destino ainda pior.
Uma história semilendária diz que seu cachorro Diamond derrubou uma vela e causou um incêndio que queimou manuscritos produzidos em cerca de 20 anos de estudos. E aqui temos o papel de Diamond neste relato.
Independentemente da narrativa, muitas evidências sugerem que a verdadeira extensão de seu trabalho no campo da alquimia e em diversos outros pode ter sido ainda mais ampla do que é atualmente conhecido.
Começamos com uma maçã e terminamos com um cachorro. Quem diria que a vida de Newton guardaria tantos enigmas e curiosidades, tanto lendários como factuais? Temos aqui mais um exemplo de como o verdadeiro estudo da história significa deixar de lado concepções prontas e os conceitos banais.


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