Historiador chinês descreve o Império Romano do Oriente
(Livro de Tang, séculos VII–X – Fonte primária)
Aqui temos um extrato do Antigo Livro de Tang, a primeira história compilada da Dinastia Tang, concluída em 945 d.C. Trata-se de uma coletânea de anais mais antigos, datados do século VII até o X, que lançam luz sobre a visão chinesa do Império Romano Oriental (Bizantino) e sobre as relações entre os dois Estados.
Vamos ao texto:
“O país de Fulin, também chamado Daqin, situa-se além do Mar Ocidental. Ao sudeste faz fronteira com Bosi (a Pérsia). Seu território se estende por mais de dez mil li (ou milha chinesa; é uma unidade tradicional de medida de distância utilizada na China. Seu valor variou consideravelmente ao longo do tempo).
Possui cerca de quatrocentas cidades. As localidades habitadas são próximas umas das outras. As beiradas dos telhados, pilares e caixilhos das janelas dos palácios são frequentemente feitos de cristal e vidro opaco.
Há doze ministros de governo que em conjunto regulam os assuntos do Estado. Costuma-se permitir que um homem carregue uma bolsa e siga a carruagem do rei. Quando o povo tem uma queixa, lança nessa mesma bolsa uma petição escrita.
Quando o rei retorna ao palácio, decide entre o certo e o errado. Os reis não são governantes permanentes, mas escolhem homens de mérito. Se uma calamidade extraordinária atinge o país, ou se o vento e a chuva vêm em época errada, o rei é deposto e outro é colocado em seu lugar.
O chapéu do rei tem a forma de um pássaro com as asas erguidas. Seus adornos são cravejados de pérolas preciosas. O soberano veste roupas bordadas de seda, sem lapela na frente.
Senta-se num trono ornado de ouro. Possui um pássaro semelhante a um ganso, cujas penas são verdes, e que sempre permanece sobre uma almofada ao lado do rei.
Sempre que algo venenoso é colocado na refeição do rei, o pássaro canta. As muralhas de sua capital são construídas em granito e têm uma enorme altura. A cidade abriga mais de cem mil famílias.
Ao sul, a cidade dá para o Grande Mar. No leste da cidade há um grande portão, com mais de vinte zhang de altura (O zhang é uma unidade de comprimento tradicional chinesa equivalente a 10 chi, ou pés chineses. Seu valor variou ao longo do tempo e entre diferentes regiões, devido às variações no valor do chi, embora tenha sido ocasionalmente padronizado). É revestido de ouro amarelo do topo à base e brilha à distância de vários li.
Do exterior até a residência real, há três grandes portões enfeitados com toda espécie de pedras raras e preciosas. No andar superior do segundo portão, há uma grande balança de ouro suspensa.
Doze esferas de ouro pendem da haste da balança, representando as doze horas do dia. Foi feita uma figura humana, inteiramente de ouro e em tamanho natural, ao lado da qual, sempre que passa uma hora, uma das bolas de ouro cai; o som que emite anuncia as divisões do dia, sem o menor erro.
Nos palácios, os pilares são feitos de se-se (lápis-lazúli), os pisos de ouro amarelo, as folhas das portas sanfonadas de marfim, e as vigas de madeira perfumada.
Não utilizam telhas: em vez disso, o reboco em pó é comprimido sobre o teto da casa, formando um piso firme e lustroso, semelhante ao jade.
No auge do verão, quando o calor oprime os habitantes, eles conduzem a água para o alto e a fazem fluir sobre a plataforma, espalhando-a pelo teto por meio de um engenhoso mecanismo; vê-se o efeito, mas não o processo, e ouve-se apenas o som de um poço sobre o teto.
De súbito, veem-se torrentes de água caindo dos quatro beirais, como uma cascata. A corrente de ar gerada por isso produz um vento refrescante, fruto dessa hábil invenção.
É costume que os homens cortem o cabelo e usem vestes que deixam o braço direito descoberto. As mulheres não têm lapelas em seus vestidos e usam turbantes de tecido bordado.
A posse de grande fortuna confere ao dono posição social elevada. Há cordeiros que crescem no solo.
Os habitantes esperam até que estejam prestes a brotar e então os cercam com muros para impedir que as feras em liberdade os devorem. O umbigo desses cordeiros está ligado à terra; quando cortado à força, o animal morre.
No entanto, depois de fixar os brotos, as pessoas os assustam com o trotar dos cavalos ou o rufar dos tambores; então os cordeiros emitem um som de alarme, o cordão umbilical se solta naturalmente e o animal pode ser separado da planta aquática.
Os habitantes costumam cortar o cabelo e vestir roupas bordadas. Conduzem pequenas carruagens com toldos brancos.
Ao entrar ou sair, tocam tambores e erguem bandeiras, estandartes e flâmulas. O país possui muito ouro, prata e pedras preciosas. Há joias que brilham à noite, como a pérola do luar, a pedra do rinoceronte que assusta galos, grandes conchas, madrepérolas, cornalinas, corais, âmbar; e todas as curiosidades valiosas do Ocidente são exportadas deste país.
O imperador Yang Xi, da dinastia Sui, sempre desejou abrir relações com Fulin, mas não conseguiu. No décimo sétimo ano do período Qianhuan, o rei de Fulin enviou uma embaixada oferecendo vidro vermelho, gemas de ouro verde e outros artigos. Taishong os agraciou com uma mensagem sob seu selo imperial e generosamente concedeu rolos de seda.
Desde que os Ta-shih (os árabes) conquistaram alguns de seus territórios, enviaram seu comandante-chefe Mo-Yi (provavelmente o califa Mu’awiya) para sitiar sua capital. Mediante um acordo, obtiveram relações amistosas e pediram permissão para pagar anualmente tributos em ouro e seda. Em seguida, submeteram-se aos Ta-shih.
No segundo ano do período Ch’ien-fengm enviaram uma embaixada. No primeiro ano do período Ta-tsu, novamente enviaram uma embaixada à nossa corte. No primeiro mês do sétimo ano do período K’ai-yuan, seu senhor enviou um oficial de alta patente ao Cazaquistão para oferecer leões e antílopes, dois de cada.
Poucos meses depois, enviou ainda sacerdotes de grande virtude à nossa corte com tributos.”

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