O profeta Idris - O Enoque islâmico

 

 


Poucos profetas no Islã são tão misteriosos quanto Idris, o segundo profeta do Islã depois de Adão e o terceiro profeta mencionado pelo nome no Alcorão.

Ele é comumente identificado como o profeta bíblico Enoque. Assim como Enoque, Idris é considerado uma figura esotérica ou misteriosa, fortemente associada à sabedoria secreta e aos mistérios da criação. E, ainda assim, a maior parte do que sabemos sobre Idris não vem realmente do Alcorão.

Novamente, como Enoque, os detalhes surgem mais tarde, em camadas de comentários, lendas e interpretações que foram se acumulando ao redor dele. Mas repare que eles têm nomes visivelmente diferentes, e o próprio Alcorão nunca afirma claramente que Idris e Enoque são a mesma pessoa. Então qual é exatamente é a relação de Idris com Enoque? Eles seriam realmente a mesma figura? E, se forem, o que distingue a versão islâmica de Enoque de suas representações nas tradições judaica e cristã? Apenas uma nota rápida: a questão de quem exatamente Idris é nunca foi totalmente resolvida, seja no pensamento muçulmano medieval seja no moderno.

Neste artigo, vamos apenas examinar a questão de forma superficial, mas oferecendo uma introdução sólida à figura.

Vamos começar pelo lugar óbvio: o Alcorão, onde ele é mencionado apenas duas vezes. Na Surata 19, Idris aparece em uma parte que explica a importância de outros profetas. No caso, Abraão, Isaac, Jacó, Ismael e Moisés. Todos velhos conhecidos das tradições judaica e cristã. Aqui, Deus descreve as virtudes de cada profeta e a graça que concedeu a cada um deles.

Idris é chamado de verdadeiro, ou, em árabe, ṣiddīq, uma palavra que também pode carregar a conotação de alguém cem por cento fiel a Deus, no sentido de aceitar plenamente a verdade do poder de Deus e de Sua vontade no mundo. Notavelmente, nessa passagem, apenas Idris e Abraão recebem esse título.

Contudo, isso ainda não responde à nossa pergunta: quem ele é?

A Surata 21 nos dá outra pequena pista.

São apenas dois versículos, mas, mais uma vez, ele é destacado como alguém especialmente favorecido por Deus. Assim como na Surata 19, Idris não é descrito sozinho, mas em relação a outros profetas. Ismael é um nome familiar, mas o seguinte, Dhu al-Kifl, não é.

Seu nome significa “possuidor da porção”, e estudiosos sugeriram que ele poderia ser Ezequiel, Josué, Obadias, Isaías ou até mesmo Buda. Uma mistura e tanto de candidatos. Idris já é uma figura misteriosa, e aqui ele é listado ao lado de mais um profeta cuja identidade é incerta.

Portanto, ainda não avançamos muito na tentativa de descobrir sua identidade. Ainda assim, o que se destaca aqui é que Idris é descrito como firme, justo e agraciado pela misericórdia de Deus. Outro enigma é seu nome, que não tem uma origem árabe clara.

Assim como o nome Iblis, o principal nome islâmico para Satanás, o nome Idris segue um padrão de formação de palavras que frequentemente aparece em termos emprestados de outras línguas. Isso pode sugerir que o nome Idris tenha origem estrangeira.

Há quem proponha que seu nome estaria próximo do nome de Ezra ou Esdras, um sacerdote e escriba bílico, e poderia derivar da forma grega desse nome

Já outros estudiosos sugeriram possíveis conexões com o profeta Elias. Seja como for, porém, é claro que o nome de Idris não possui uma origem linguística claramente definida, nem está obviamente ligado a Enoque, o que é, no mínimo, curioso.

Então, depois de analisar o Alcorão e a etimologia de seu nome, o que realmente sabemos sobre Idris? Muito pouco. Ele foi um profeta, tinha a reputação de ser veraz e perseverante, mas, notavelmente, também foi, citando, “elevado a uma alta posição”. Essa expressão pode ser um dos detalhes-chave que estudiosos muçulmanos e intérpretes posteriores tentaram compreender. O que nos leva, finalmente, a Enoque.

Enoque é mencionado poucas vezes na Bíblia, onde é um dos patriarcas anteriores ao Dilúvio, pai de Matusalém e tataraneto de Adão. Os versículos em que ele aparece são notoriamente misteriosos. Em Gênesis, recebemos poucos detalhes: ele gerou Matusalém aos 65 anos, andou com Deus por outros 300 anos, teve outros filhos e, então, aos 365 anos, deixou de existir, porque Deus o tomou para si.

Durante o período do Segundo Templo, escritores judeus expandiram enormemente sua figura em uma série de obras apócrifas geralmente chamadas de literatura enoquiana. O assim chamado Primeiro Livro de Enoque é o mais antigo e provavelmente o mais famoso deles.

Trata-se de um compêndio de textos que inclui visões do céu, histórias sobre anjos caídos chamados Vigilantes e elaboradas profecias sobre o Juízo.

O Segundo Livro de Enoque, um pouco mais tardio, também descreve sua ascensão através de múltiplos céus, onde ele é transformado em uma figura angélica gloriosa.

O Terceiro Livro de Enoque vai ainda mais longe, identificando Enoque com o arcanjo Metatron, o anjo supremo, a entidade que se senta ao lado do trono de Deus como seu atendente celestial.

Os primeiros cristãos viam Enoque como um modelo de fé e uma testemunha do poder de Deus sobre a vida e a morte. Na Epístola aos Hebreus, no Novo Testamento, a breve menção a Enoque em Gênesis é ampliada em um testemunho de fé.

Outro texto, a Epístola de Judas, cita explicitamente o Primeiro Enoque, apresentando Enoque como um profeta que previu o julgamento vindouro sobre os ímpios.

Essas referências mostram que ao menos alguns dos primeiros cristãos tratavam Enoque como um profeta autorizado, cuja ascensão ao Céu e cujas revelações podiam ser usadas para apoiar os ensinamentos cristãos. Mas quando os muçulmanos começaram a associar Enoque a Idris? Os historiadores não têm total certeza, mas isso provavelmente ocorreu durante do primeiro século do Islã.

Compiladores iniciais da literatura dos hadith sugeriram essa ideia, inclusive o renomado historiador e estudioso Wahb ibn Munabbih, que morreu por volta de 730 d.C. Ele considerava Idris e Enoque como a mesma figura e escreveu que Idris havia recebido 30 livros de Revelação, embora alguns digam que isso signifique trinta páginas do Alcorão.

Independentemente disso, a ideia aqui é que Idris recebeu um conhecimento especial diretamente de Deus e que estava ciente da verdade da Revelação bem cedo, séculos antes de Maomé. Mais uma vez, a ascensão de Enoque ao céu é a característica definidora de sua história. Ele é levado ao céu e nunca experimenta a morte.

Voltando à Surata 19, que afirma que Deus elevou Idris a uma posição elevada, o entendimento comum desse versículo sugere que Idris foi levado ao céu por Deus para cumprir algum tipo de propósito celestial. A suposição de que ele foi elevado ao céu como Enoque pode ser o motivo pelo qual tantos comentaristas muçulmanos enxergaram os dois como uma única figura. Em um dos hadith, durante um trecho de sua viagem mística noturna, o Profeta Maomé vê Idris no quarto céu.

Na cosmologia islâmica, existem sete céus, cada um com suas qualidades específicas.

O quarto céu, chamado Maʿuna, é feito de latão ou ouro branco, e às vezes é entendido como o lar eterno de Idris, junto ao Anjo das Lágrimas, uma figura identificada nas tradições judaica e muçulmana como Qasiyah. A partir daí, podemos ver que Deus concede um lugar especial no cosmos a Idris, assim como a Enoque no antigo pensamento judaico-cristão.

Até aqui, então, vimos como os muçulmanos conectaram Enoque a Idris, enfatizando suas ascensões ao céu e seus papéis como portadores da sabedoria divina.

Mas a história não se encerra aqui. Alguns estudiosos foram ainda mais longe e ligaram Idris a outro sábio lendário: Hermes Trismegisto.


 

Hermes Trismegisto é o sábio lendário por trás do Hermetismo, uma tradição filosófica e religiosa baseada nos textos a ele atribuídos.

Os historiadores geralmente o entendem como uma combinação sincrética do deus egípcio Thot e de seu equivalente grego Hermes, ambos associados à transmissão do conhecimento. Já no final do primeiro século, porém, Hermes Trismegisto era reconhecido como o filósofo, mago e sábio divino por excelência de um passado remoto. E os textos herméticos abrangem uma gama gigantesca de tópicos.

Entre estes, a natureza do universo e de Deus; além de alquimia, astrologia, magia, medicina e muito mais. Os mais famosos desses textos são encontrados no Corpus Hermeticum, uma coletânea de 17 textos gregos compostos entre 100 e 300 d.C. Eles foram reunidos em um corpus único, embora as raízes do hermetismo provavelmente remontem a um período anterior, talvez ao período ptolomaico no Egito.

O historiador grego Heródoto identificou Thot com o Hermes grego já no século V a.C. E nas tradições literárias europeias, Hermes Trismegisto tornou-se um símbolo monumental de sabedoria oculta, ocupando o centro do esoterismo renascentista.

É-lhe atribuído o conhecimento secreto da astrologia, da alquimia e da magia, e pensadores renascentistas o tratavam como um sábio antigo cujos escritos preservavam uma filosofia primordial mais antiga do que Platão ou mesmo Moisés.

No mundo muçulmano, ele também viria a representar uma variedade de interesses esotéricos ou ocultos. Mas os autores muçulmanos o concebiam de maneira diferente.

Tome-se, por exemplo, seu epíteto, Trismegisto, que interpretaram de maneira diferente de seus equivalentes europeus. Em grego, Trismegisto significa literalmente “o Três Vezes Grande”, o que provavelmente indica que Hermes possuía uma sabedoria em uma escala quase inimaginável. E pode derivar de um epíteto de Thot encontrado no Templo de Esna, ao sul de Tebas, onde Thot é chamado de “o Grande, o Grande, o Grande”.

Já em árabe, o epíteto costuma ser traduzido como Hermes, o Triplicado.

Os pensadores muçulmanos interpretaram isso como descrevendo então não uma, mas três figuras distintas, todas chamadas Hermes, cada qual com sua própria história de vida e características. Juntas, elas formavam uma tradição unificada de sabedoria que se estendia ao longo da história.

Um dos Hermes seria um egípcio que teria vivido antes do Dilúvio. Outro um babilônio dos tempos imediatamente posteriores ao Dilúvio, enquanto o último Hermes seria um segundo egípcio, que teria vivido em uma época bastante posterior à de Noé.

Os estudiosos ainda não sabem de onde teria brotado essa ideia de diferentes Hermes. A tradição é confusa e as explicações variam.

Em 1954, o estudioso Martin Plessner sugeriu que parte da história pode ser rastreada até uma crônica bizantina do início do século IX, escrita por Jorge Sincelo, que citava um livro conhecido como o Livro de Sótis. Esse texto menciona dois homens, ambos chamados Hermes: um logo antes do Dilúvio e outro logo depois. Nessa versão, o primeiro Hermes inscreveu conhecimentos ocultos na língua egípcia em pilares de pedra para que pudessem sobreviver para sempre.

No entanto, quando veio o Grande Dilúvio, esses escritos foram enterrados e perdidos, sendo redescobertos apenas pelo segundo Hermes, que devolveu a sabedoria antiga à humanidade. Parece que histórias como essa chegaram à literatura árabe por meio de fontes gregas que circulavam no Oriente Médio durante os primeiros séculos do domínio islâmico. De onde veio a ideia de um terceiro Hermes, entretanto, simplesmente não sabemos.

Ainda assim, o primeiro Hermes é consistentemente identificado como ninguém menos do que Enoque-Idris. Em seu livro The Arabic Hermes, o pesquisador Kevin van Bladel explica como muitos autores muçulmanos conectaram essas três figuras. Embora a noção de que Idris e Enoque sejam a mesma figura remonte ao primeiro século do Islã, essa ligação com Hermes surgiu um pouco mais tarde.

Durante os califados Omíada e Abássida, diversos temas da filosofia grega começaram a entrar nos círculos literários árabes, incluindo os escritos herméticos. O primeiro texto a vincular claramente Idris a Hermes é o Kitab al-Uluf, ou Livro dos Milhares, composto pelo astrólogo judeu Abu Ma‘shar al-Balkhi. Ele era visto como uma autoridade em tudo o que dizia respeito a Hermes.

O Livro dos Milhares não sobreviveu como um texto único, mas aparece aqui e ali em citações de outros autores. Uma dessas citações afirma que existiram três Hermes. O primeiro deles, como nos outros casos que mencionamos, seria o Hermes que viveu antes do Dilúvio.

Os persas afirmam que seu avô foi Gayomard ou Gayomart, isto é, Adão. Os hebreus que ele é Enoque, que em árabe seria Idris.

De fato, mesmo sendo apenas um fragmento do livro completo, este trecho nos fornece muitas informações. Aqui, Abu Ma‘shar diz que Hermes é um título atribuído a mais de uma pessoa, assim como César é o título dos governantes romanos. Desse modo, faz sentido que possam ter existido três diferentes Hermes ao longo do tempo e do espaço, ainda assim conectados entre si por causa de seu vínculo inato com o conhecimento esotérico.

Posteriormente, escritores muçulmanos ofereceram interpretações semelhantes, como um cronista árabe do século XIII, que escreveu que Hermes é Enoque e que ele é Idris. Hermes seria uma palavra siríaca e significaria “o erudito”, assim como Hermes Trismegisto significaria “o erudito dos eruditos”. A palavra Hermes não seria um nome, mas um atributo do conhecimento.

Idris também não seria um nome. Ele teria sido chamado Idris por causa de seus grandes estudos científicos. Seu verdadeiro nome era Enoque.

Esse relato vai em uma direção semelhante à de Abu Ma’shar, vendo Hermes como um título e não um nome. Mas aqui ele vai um passo além e diz que Idris também é apenas um título. O Livro dos Mil também mostra como as pessoas imaginavam o primeiro Hermes como uma figura justa e um descendente de Adão, embora aqui Adão seja identificado com Gayomard, uma espécie de figura do primeiro homem equivalente a Adão nas religiões persas pré-islâmicas.

Assim, Abu Ma’shar apresenta o primeiro Hermes como uma figura que mistura tradições hebraicas, persas, árabes e gregas em uma única identidade. Nessa representação, Hermes surge como um ser primordial, um dos primeiros homens a caminhar sobre a Terra. Desse modo, temos aqui uma indicação de como funciona a percepção de Hermes como Enoque e Idris.

Abu Ma’shar nos diz que cada comunidade simplesmente dá um nome diferente à figura, dependendo de seu contexto cultural. Enoque corresponde a Idris, que corresponde ao primeiro Hermes. Ibn Juljul, um estudioso do século X, afirma que o primeiro Hermes foi o primeiro a estudar os eventos celestes e as estrelas, tornando-se assim o primeiro astrólogo conhecido. Também foi o primeiro a construir templos para Deus, o primeiro a estudar medicina e o primeiro poeta. Diz-se ainda que foi o primeiro a prever a chegada do Dilúvio e deixou advertências a respeito disso. Esse Hermes também viveu no Alto Egito, e a ele é atribuída a verdadeira autoria da construção das pirâmides.

Algo que Ibn Juljul escreve, por fim, é que, como Idris foi apresentado como o primeiro cientista e filósofo, as pessoas concluíram que ele seria Enoque e Hermes Trismegisto.

Em muitos aspectos, portanto, sua trajetória reflete a de Enoque no judaísmo e no cristianismo, como uma figura bíblica obscura cujo papel se expandiu em escritos posteriores. Embora o Alcorão mencione Idris apenas brevemente, tradições posteriores multiplicaram sua identidade.

Primeiro, um profeta como Enoque. Depois, um filósofo primordial como Hermes. Tornou-se, portanto, uma figura simbólica capaz de estender uma ponte entre a escrita, a filosofia e o esoterismo.





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