O tráfico de escravas no Império Otomano


O mundo antigo vivia um cotidiano de abusos e violências que, hoje em dia, acontecem sobretudo em zonas de guerra, das quais infelizmente não nos livramos apesar das muitas leis internacionais, da Declaração dos Direitos Humanos e de toda aquela série de instrumentos que deveriam garantir a proteção da pessoa, mas que acabam sendo desrespeitados nessas regiões, onde a violência se torna um instrumento de controle militar das populações atacadas.

Houve um tempo em que, ao longo das costas do Mediterrâneo, mulheres, crianças e pessoas em geral não podiam se sentir seguras nunca. O perigo era serem sequestradas pelos piratas berberes, grupos de bucaneiros que atacavam vilarejos e cidades, saqueando, matando e raptando homens, mulheres e crianças, que eram vendidos nos mercados de escravos do Império Otomano, entre os quais o de Argel era o mais famoso e populoso

Uma mulher em especial nos deixou sua história: chamava-se Maria ter Meetelen e foi sequestrada em 1731.

Houve também o caso de uma mulher francesa que, por se recusar a se casar com um mouro, foi arrastada pelas ruas com as mãos amarradas atrás das costas e açoitada até sangrar. Tudo isso para servir de exemplo às outras, para que não resistissem à vontade de seus captores.

Devemos mencionar que, em Argel, dezenas de milhares de pessoas sequestradas acabavam sendo leiloadas, torturadas e brutalizadas por uma série de razões que veremos adiante.

Antes de falar especificamente das mulheres sequestradas pelos otomanos, é preciso fazer alguns apontamentos.

A sociedade antiga baseava sua riqueza no trabalho escravo. Os homens eram geralmente explorados nos trabalhos mais pesados e perigosos. Por exemplo, nos campos ou nas minas. E as mulheres eram sobretudo exploradas sexualmente ou em labores domésticos. Um escravo custava muito no início, mas depois bastava alimentá-lo.

Os escravos, por vezes definidos como animais falantes, foram usados pelos antigos gregos para que os homens livres pudessem se dedicar à guerra e ao teatro. Foram usados pelos romanos em suas conquistas e jogos e, posteriormente, foram comercializados por muitos outros povos até a era moderna e contemporânea.

Para falar da situação das mulheres e das torturas que eram obrigadas a sofrer, prosseguiremos, portanto, com este texto que abarcará o mercado e o mundo dos escravos otomanos.

Argel, que acabamos de mencionar, era o principal porto da pirataria berbere. Corsários e piratas partiam das costas do norte da África e capturavam navios europeus ou promoviam ataques às costas do Mediterrâneo, da Espanha à Sicília até o centro-norte da Itália, alcançando até a Islândia.

O mercado de escravos era parte integrante da vida econômica da cidade e era regulado pelas autoridades locais. Havia escravos destinados aos trabalhos mais pesados, como os remadores nas galés e trabalhadores nos estaleiros, nas pedreiras e nos campos, e outros mais valiosos, como mulheres jovens e crianças destinadas ao serviço doméstico ou aos haréns. Os europeus eram particularmente procurados, especialmente italianos, espanhóis e franceses, porque muitas vezes era possível obter resgates mais altos das famílias ou das autoridades religiosas.

Há muitíssimos quadros esplêndidos de Jean-Léon Gérôme, um pintor do século XIX que retratou, com grande técnica, em estilo neoclássico acadêmico, os ambientes e os personagens do mundo otomano.

 

O Mercado de Escravos, pintura de Jean-Léon Gérôme

 

Procurem por essas obras e, a partir delas, será mais fácil se imaginar em Argel em uma manhã do século XVII.

O ar cheira a sal e alcatrão; os gritos dos mercadores se misturam ao barulho do porto. Logo além do mercado de especiarias e tecidos, abre-se uma praça murada. É aqui que receamos encontrar o mercado de escravos.

O sol bate forte sobre o pátio e centenas de pessoas se aglomeram sob os pórticos. Os corsários acabaram de voltar de uma expedição. Empurram adiante fileiras de prisioneiros acorrentados, com a pele queimada pelo sol e as roupas rasgadas pela travessia.

Distinguem-se marinheiros espanhóis, camponeses sicilianos, pescadores corsos, mulheres genovesas e crianças capturadas ao longo das costas da Calábria. Alguns choram; outros ficam imóveis, com o olhar perdido. Um leiloeiro grita os nomes, a idade e as capacidades.

Os compradores, funcionários otomanos, mercadores e janízaros, observam com olhos frios. Apalpam os músculos, verificam os dentes, fazem os prisioneiros andar de um lado para o outro. As mulheres mais jovens são levadas à parte, sob tendas cobertas, destinadas aos haréns ou às casas dos nobres, onde os potenciais compradores podem examiná-las longe dos olhares da multidão.

Mandam-nas despir-se para avaliar sua beleza. O leilão começa: uma mão se levanta, outra faz uma oferta maior. Alguns prisioneiros valem muito; seus parentes ou confrarias cristãs pagarão resgates.

Outros, fracos demais, acabarão nos remos das galés ou nas pedreiras. Às margens da praça, movem-se silenciosamente padres trinitários e mercedários com suas vestes religiosas. Recolhem dinheiro, negociam, esperam resgatar ao menos alguns de seus fiéis.

Enquanto isso, a coluna dos novos escravos se afasta, com correntes nos pés, em direção aos navios e aos estaleiros. O cheiro da multidão, da poeira e do suor enche o ar. O mercado é um teatro cruel, onde a vida de homens e mulheres é reduzida a mercadoria, vendida pelo preço mais conveniente.

No entanto, para Argel, essa cena não é excepcional. É o coração de sua economia e um dos sinais distintivos de seu poder corsário. É nesse contexto que se deve analisar a condição da mulher cristã, catapultada de um mundo, o europeu, violento e cruel, mas onde ao menos eram livres para serem cristãs.

É o mundo da escravidão islâmica, onde lhes será pedido que se convertam ou que sofram as consequências de sua escolha.

Isso pode parecer uma contradição em um império como o otomano, onde ainda persistiam igrejas e o culto ortodoxo em diversos pontos, enquanto na Europa ver uma mesquita era inconcebível ou extremamente raro. Mas a história é assim, feita de contradições. É complexa, não podendo ser reduzida a sistematizações pobres nem submetida a visões ideológicas que costumam distorcê-la para um lado ou para o outro. Ela é o que é, e cumpre-nos também dizer que os períodos de maior tolerância no Império Otomano se alternavam com períodos menos tolerantes, a depender do sultão.

Ademais, tratar das violências e torturas cometidas contra as mulheres da época significa realizar análises baseadas em fontes fragmentárias. As escravizadas não deixaram diários escritos no momento em que eram cativas; a maioria delas nunca retornou à Europa cristã e, pior ainda, muitas eram analfabetas.

Não nos legaram, portanto, quase nada por escrito. Baseamo-nos nas poucas fontes disponíveis. A primeira é a de uma das pouquíssimas mulheres que descreveram algo com sua própria pena.

Voltamos, assim, a Maria ter Meetelen. Era holandesa, foi capturada em 1731, aos 27 anos, e levada para o Marrocos. Posteriormente, escreveu sua autobiografia, na qual se lê:

“Assim que desembarcamos, separaram-nos dos homens.

As mais jovens foram levadas para uma sala à parte, e os mercadores árabes as observavam como se faz com cavalos. Algumas mulheres, para escapar daquele exame, arranhavam o rosto ou se sujavam com cinzas, para parecer menos atraentes. Depois disso, o sultão mandou chamar todas as escravas cristãs.

Entramos tremendo, porque se dizia que quem fosse considerada bonita não voltava mais, acabando em seu harém. Eu disse que era casada e que estava grávida, e assim me levaram para o fim da fila (…). As mulheres que recusavam o islã tinham os cabelos cortados e eram espancadas diante das outras, para servirem de exemplo.

Algumas cederam por medo. Outras preferiram morrer. Eu mesma repeti as palavras delas com os lábios, mas em meu coração permaneci cristã. Entre as escravas cristãs, ajudávamos umas às outras como podíamos.

Quem recebia pão ou figos secos dividia com as outras. À noite, rezávamos juntas, em segredo, e confessávamos umas às outras nossas culpas, como se já estivéssemos prestes a morrer. Uma mulher francesa que se recusava a se casar com um homem foi arrastada pelas ruas com as mãos amarradas atrás das costas e chicoteada até sangrar.

Isso para advertir as outras, para que não resistissem à vontade deles. Muitas de nós éramos empregadas para tecer ou fiar lã, mas até o menor erro era punido com tapas ou com dias sem pão. Era o medo, mais do que a fome, que nos fazia obedecer.

Algumas companheiras foram obrigadas a se casar com homens que as tratavam como servas. Eram privadas do próprio nome e rebatizadas com outros nomes. Eu vi uma jovem italiana de apenas dezesseis anos que, pela manhã, ainda chorava pela mãe e, à noite, já era esposa de um velho mercador. E quando uma escrava adoecia gravemente, muitas vezes não recebia nenhum socorro.

Algumas eram simplesmente deixadas para morrer e, no dia seguinte, já havia outra comprada no mercado em seu lugar. Para não esquecer minha língua e minha fé, todos os dias eu recitava as orações de que me lembrava, assim como outras mulheres faziam o mesmo.

Dizíamos também que, mesmo que nossos corpos fossem prisioneiros, nossas almas permaneciam livres.”

O segundo testemunho que propomos a vocês é o de Emanuel D’Aranda, um diplomata flamengo capturado pelos corsários berberes em 1640, que, anos depois, publicaria um livro fundamental, RelationDe La Captivite Et Liberte Du Sieur Emanuel D’Aranda, publicado pela primeira vez em Antuérpia, em 1656, e depois traduzido para várias línguas.

Não se trata de um simples diário pessoal, mas de um relato muito rico, que alterna memórias autobiográficas, como a captura, as condições de vida dos prisioneiros e a brutalidade dos senhores, com a descrição da sociedade argelina, seus costumes, o mercado de escravos, os papéis sociais e as relações entre muçulmanos, judeus e cristãos.

Vamos a alguns trechos:

“As jovens mulheres cristãs eram mantidas sob atenção especial, pois se esperava obter lucro vendendo-as aos paxás ou aos ricos mercadores. Muitas delas, assim que chegavam ao mercado, eram despidas e exibidas como cavalos, e o preço subia se parecessem saudáveis e bonitas.

Lembro-me de uma jovem francesa que, apesar de ter recebido chicotadas cruéis, nunca quis renegar a fé em Cristo. Dizia aos seus companheiros de infortúnio: ‘Podem tirar a minha liberdade, mas não o meu Senhor.’ Morreu doente, mas com o crucifixo que havia esculpido secretamente em um pedaço de madeira.

As moças cristãs, se eram jovens e agradáveis, eram imediatamente compradas pelos paxás e pelos ricos mercadores, não para servi-los como domésticas, mas para aumentar seus haréns. Muitas delas, chorando e gritando, eram arrastadas para longe dos pais e dos irmãos, e nunca mais se soube nada sobre o seu destino. Uma jovem de Sevilha, de família honrada, foi espancada várias vezes porque se recusava a pronunciar a fórmula da fé deles.

Rasparam-lhe os cabelos, vestiram-na à moda turca e todos os dias colocavam o Alcorão diante dela, até que, vencida pela dor, cedeu com os lábios, mas não com o coração.

Entre as prisioneiras também havia mães com crianças pequenas. Os filhos eram arrancados do peito e entregues a famílias mouras para serem criados na religião deles.

Não vejo dor mais atroz do que a de uma mãe que vê o próprio sangue crescer sob outro nome e outra fé. Não era raro que os senhores bêbados entrassem nos quartos das escravas cristãs, escolhendo-as como se escolhe um animal no mercado. As mais jovens viviam em medo constante, e muitas tiravam a própria vida em vez de sofrer tais ultrajes.”

Há também diversos trechos, contidos em outros relatos mais curtos, que nos contam ainda mais. Em 1581, Antônio de Souza, frade franciscano português mantido prisioneiro em Argel, escreveu:

“Não é raro ver moças cristãs de apenas 12 ou 13 anos compradas pelos mouros e imediatamente forçadas a renegar Cristo para que possam entrar nos haréns. Algumas resistem e são espancadas; outras, por medo ou fome, submetem-se.”

Em 1553, Pietro Bragadin, embaixador veneziano em Constantinopla, enviou um relatório afirmando que as mulheres capturadas nas ilhas gregas eram facilmente convertidas à força e, em seguida, casadas com soldados turcos.

Aquelas que se mostravam rebeldes eram vendidas nos mercados, onde perdiam a honra.

No século XVII, Evliya Çelebi, um viajante otomano, descreveu a vida nos palácios imperiais:

“Muitas das concubinas do sultão eram filhas de infiéis, capturadas ainda jovens durante as guerras e instruídas nas artes da música, da dança e da conversação.”

Tornadas muçulmanas, algumas ganhavam o favor do sultão e ascendiam a posições de poder. Nem todas, porém, eram mantidas prisioneiras por toda a vida. No registro de resgate dos mercedários, redigido em Palermo em 1624, lê-se: “Resgataram-se duas mulheres de Messina, capturadas pelos corsários de Túnis, que há dois anos serviam nas casas de mercadores turcos. Por elas pagou-se grande soma, pois eram jovens e formosas.”

Um homem do século XVII, após ter pago o seu resgate, escreveu: “As mulheres capturadas no mar são imediatamente separadas, e as mais jovens e bonitas são destinadas aos banhos dos paxás; as outras são vendidas. Às vezes, quando não há compradores, são enviadas para as casas dos janízaros para servir, e poucas voltam a ser vistas livres.”

Um missionário, em 1609, ao concluir uma missão de resgate em Túnis, relatou: “Encontramos muitas mulheres cristãs em estado miserável, algumas já com filhos de mouros; outras choravam noite e dia, suplicando para serem resgatadas, pois diziam sofrer violências e injúrias indizíveis.”

Já um prisioneiro genovês, em 1588, escreveu de Argel uma carta, conservada no Arquivo de Estado de Gênova: “Nossas mulheres são mantidas como mercadorias, negociadas no mercado como cavalos e pesadas como sacos. Quem não se converte é levado ao chicote ou ao leito forçado. Apenas com resgate há esperança de liberdade.”

O historiador eclesiástico Daniele Farlati, em 1751, retoma documentos venezianos mais antigos: “Muitas mulheres croatas e dálmatas, capturadas pelos turcos em incursões, foram vistas em escravidão em Constantinopla, não poucas introduzidas nos haréns e tornadas muçulmanas.”

O embaixador francês Ogier Ghiselin de Busbecq, em suas Cartas da Turquia, redigidas em Constantinopla em 1562, escreve: “Não raramente vi escravas cristãs, capturadas nas guerras da Hungria ou da Transilvânia, que, mudando de fé, tornaram-se esposas de soldados ou concubinas de ricos otomanos. Algumas, embora relutantes, acabaram se acostumando à nova condição.”

Já em um relatório anônimo sobre o saque de Otranto de 1480, mencionado nas crônicas salentinas, lê-se: “Muitas matronas e virgens foram capturadas e enviadas para Constantinopla; algumas vendidas, outras doadas, e nenhuma foi devolvida à pátria, exceto aquelas resgatadas a alto preço.”

Tendo, então, ouvido essas escravas falarem desde um tempo tão distante, poderíamos, contudo, cair na tentação de dividir o mundo, e especificamente aquele Mediterrâneo, entre bons e maus, pensando que os otomanos raptavam mulheres indefesas e que os cristãos se empenhavam apenas em defendê-las e resgatá-las.

Mas a história, como já dissemos, tem o tremendo fascínio de ser muito mais complexa do que parece à primeira vista.

A expansão do Império Otomano permitiu equipar numerosas embarcações de grande qualidade, não utilizando os navios apenas para o comércio. Entre os corsários berberes do Norte da África, também havia muitos europeus: entre eles, Jan Janszoon van Haarlem, holandês que havia se tornado muçulmano e se fazia chamar Murat Rais, o Jovem.

 

Murat Rais

 

Esses europeus haviam ensinado aos otomanos algumas técnicas de navegação mais avançadas, tecnologias das quais os piratas se aproveitavam para saquear toda a bacia do Mediterrâneo.

É preciso, ademais, fazer uma observação adicional: não se deve pensar nos corsários berberes como ativistas modernos da jihad; pelo contrário, os piratas não demonstravam qualquer preferência ao sequestrar e saquear povos de diferentes religiões, culturas e cores de pele.

Os escravos dos berberes podiam ser negros ou brancos, católicos, protestantes, ortodoxos, judeus e, em casos mais raros, até muçulmanos. O importante era apenas o lucro.

No mesmo período, também o Ocidente cristão escravizava muitíssimas pessoas capturadas durante guerras e campanhas de conquista, mas não realizava incursões em território inimigo com o objetivo específico de capturar populações.

Utilizava diferentes mercados e, posteriormente, foram justamente os europeus que deram origem ao imenso tráfico de escravos africanos, levados à América em condições que ultrapassam o que podemos considerar desumano.

Já os piratas berberes comercializaram grandes quantidades de escravos e escravas por pelo menos três séculos, aproximadamente do século XVI ao XIX, reduzindo a essa condição ao menos um milhão de pessoas; a estimativa mais precisa aponta para cerca de um milhão e duzentas e cinquenta mil, ao todo. Entre essas pessoas, as mulheres jovens e bonitas sofriam um destino terrível.

Acabavam tornando-se escravas sexuais do sultão ou dos vários paxás e beis, e eram obrigadas a renegar a própria fé, sendo torturadas e seviciadas caso não se convertessem. Era um destino cruel que, no íntimo dessas mulheres, era ainda mais significativo do que seria hoje. Para elas, a fé era uma questão de identidade profunda, algo irrenunciável; e, por isso, havia tanta insistência em conduzir sua conversão.

Tratava-se de uma tortura psicológica, antes mesmo de física, que lançou centenas de milhares de mulheres no mais absoluto desespero, obrigadas a viver uma existência de dor, muitas vezes esquecida, mas que devemos lembrar como tão digna de memória quanto outras formas de escravidão, como algo que jamais deveria voltar a ocorrer.

Infelizmente, contudo, sabemos que, até hoje, coisas desse tipo ainda acontecem e, com frequência, são verdades abafadas ou mesmo esquecidas.

 

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