O Verme Sangrento
Neste livro, o rei de Gardariki, Svafrlami, um grande devoto de Odin, escraviza os anões Alviss, Durinn e Dvalinn e obriga-os a forjar uma espada invencível. Movidos pela indignação, os três lançarão uma maldição sobre a Tyrfing, a espada que ficará conhecida como o verme sempre sedento de sangue, cujos magníficos poderes serão acompanhados por consequências funestas.
Esta história é inspirada em diversas sagas nórdicas, sobretudo na fascinante Saga de Hervor, escrita no século XIII. Alguns dos territórios mencionados na trama fazem referência a lugares históricos, como o próprio reino de Gardariki, termo em nórdico antigo usado durante a Idade Média para designar os domínios dos Rus.
No entanto, este não é um romance histórico, e sim uma obra de fantasia que retoma o ambiente mágico e lendário das sagas e de outros relatos e poemas medievais, como a Canção dos Nibelungos.
Sua versão original foi escrita em italiano, venceu o prêmio Wattys de 2021 e foi publicada na Itália pela editora Delos:
https://delos.digital/9788825435696/il-verme-del-sangue
https://www.wattpad.com/story/210752375-il-verme-del-sangue
Em português, está disponível na Amazon e no Clube de Autores:
https://www.amazon.com.br/Verme-Sangrento-Marcello-Salvaggio-ebook/dp/B0G5HWPFDP
Livro físico no Clube de Autores
Pode ser muito interessante para quem aprecia a mitologia nórdica e obras que emulem uma atmosfera, uma linguagem e um tom coerentes com os das antigas sagas!
Segue abaixo o capítulo 1:
I
O rei de Gardariki balançava, açoitado pelo vento, pendurado de cabeça para baixo ao mais alto freixo do bosque por uma corda que se enrolava em suas pernas feito uma serpente famélica.
Eu sei que pendi numa árvore balançada pelo vento por nove noites inteiras, ferido por uma lança, e consagrado a Odin, eu mesmo a mim mesmo; naquela árvore que não sei de onde suas raízes vêm, recitou em seu íntimo estes versos, ergueu uma mão e acariciou as faces encovadas. Com a outra, tocou as costelas salientes. Subindo mais, os ossos do quadril despontavam sob uma fina camada de pele. Restava-lhe pouca carne para oferecer, a coceira nas feridas gerada pelo burburinho dos vermes.
Após nove dias sem mexer a boca, umedeceu os lábios. Era como lamber uma casca de árvore.
Começou a chover. Naquela tarde, o céu estava coberto de galhos escuros de nuvens. Estendeu a língua, deixando-a escorregar para fora de sua caverna, e capturou algumas gotas.
Um raio cindiu o firmamento. Devolveu seu dragão para dentro, arregalou os olhos e fitou aquele brilho. Precisava ver.
No chão, aquela bruxa maldita, pequena como uma criança de seis anos, aproximava-se a passos crepitantes sobre a lama tapeçada de gravetos e folhas podres, enegrecidas como cinzas.
Seu rosto lembrava mais um entalhe em um velho tronco do que um semblante humano, e de seu cajado, envolto por dedos enrugados, pendia um cordão com a runa Ansuz.
– Você não é Odin. – Ressoou o estrondo do martelo de Thor e ela parou e encarou-o, franzindo a testa. – Caso contrário, teria posto fim a esta tolice! – disparou palavras de reprovação, que saltaram de sua boca junto com gotas de saliva. – Já se passaram nove dias e nove noites, Svafrlami! Pare de desperdiçar seu tempo. Seja rei ou mendigo, você não é nada além de um ser humano. Está, portanto, distante da matéria dos aesires. Não teme ser punido por sua insolência? Você é uma criatura mais desprezível do que o mais vil entre os vermes que roem as suas feridas.
O rei de Gardariki a encarava de volta, mas ainda não era o momento de replicar.
– Desça imediatamente! Gostaria de testemunhar tudo o que acontece nos nove mundos, mas ignora que seu trono vago é cobiçado por muitos nobres do reino? Um dos seus perversos primos, Ormr dos Olhos de Cobra, tece intrigas e emboscadas para tomá-lo. Afirma que você já está morto, que o viu definhar pendurado a uma árvore, e um de seus fantoches corteja sua mãe e assedia sua irmã, a bela Eyfura. O traidor emprega sempre palavras purulentas. Isso não aflige seu coração? Não o comove? Mas é claro que não! Derrubarão este freixo, cujo tronco será aberto, e você será colocado dentro dele, para depois ser lançado às águas nas quais afundará! – A tosse interrompeu seu discurso. Liberou alguns grunhidos antes de retomar a fala: – Estou exausta! – Sentou-se então sobre uma rocha, ofegante.
Desferiu-lhe um olhar irritado, encolheu os ombros e se calou.
Por quanto tempo a volva1 permaneceria em silêncio ao pé da árvore, sob o sol e a chuva, recebendo também o orvalho e o granizo sobre a cabeça e as costas?
O rei pendurado à árvore fechou os olhos.
1 A Völva, ou também Vǫlva, Vala ou Vølve, é a versão nórdica de uma bruxa, de uma mulher que pratica um certo tipo de magia, o seiðr. O seiðmaðr é o seu correspondente masculino.

Comentários
Postar um comentário